O aumento da polarização política nas democracias contemporâneas tem impacto direto sobre os mercados financeiros e sobre a capacidade de estimar valores justos de empresas, afirma o professor Aswath Damodaran, especialista em finanças corporativas da Stern School da Universidade de Nova York. Em entrevista, ele explicou por que a convergência de resultados eleitorais conflitantes gera grande incerteza sobre atividades econômicas e custo de capital, elementos centrais para a técnica de valuation.

Contexto: de ambiente previsível a cenários divergentes

Damodaran traça um contraste entre duas realidades. Quando imigrou para os Estados Unidos na década de 1980, recorda, havia uma razoável convergência entre os principais atores políticos, o que assegurava uma trajetória econômica relativamente estável. "Quando vim para os EUA, em 1981, os dois partidos [Democrata e Republicano] concordavam em 90% dos assuntos. Não tinha como ocorrer grandes zigue-zagues na economia", disse. Naquela conjuntura, as diferenças políticas não costumavam provocar mudanças abruptas na política fiscal ou na direção macroeconômica, o que facilitava a avaliação de empresas sem que resultados eleitorais alterassem profundamente o horizonte de expectativas.

Hoje, em sentido oposto, a competição política tende a gerar cenários factíveis entre si muito discrepantes. Para Damodaran, isso torna praticamente inviável atribuir com precisão preços a empresas e ações porque projeções do fluxo de caixa futuro e a taxa de desconto aplicável variam de modo substancial conforme quem vence pleitos eleitorais.

Valuation sob risco: como a política altera taxas de desconto e fluxos

O núcleo do argumento técnico é simples, embora suas implicações sejam amplas: o valuation converte fluxos de caixa futuros em um valor presente por meio de taxas de desconto que incorporam risco e custo de capital. Se o ambiente político pode alterar a atividade econômica — por exemplo, mudanças em política fiscal, regulação ou comércio — o custo de capital e as expectativas de crescimento mudam também. "Não vai ser fácil [precificar empresas] porque vivemos em um mundo muito polarizado. Na verdade, acho que o mundo está caminhando na direção oposta de cenários mais estáveis [de precificação]", afirmou.

Quando diferentes cenários eleitorais implicam caminhos econômicos distintos, o investidor enfrenta não um único conjunto de hipóteses, mas múltiplas trajetórias plausíveis, cada uma com sua própria taxa de desconto. Essa multiplicidade amplia a dispersão de preços e, portanto, a volatilidade dos mercados.

Comparação com mercados emergentes: o papel do risco-país

Damodaran observa que o Brasil e, de modo geral, a América Latina historicamente lidam com a percepção de risco-país, frequentemente associada à solvência das contas públicas. Nesse contexto, eleições que resultam na ascensão de gestores menos comprometidos com disciplina fiscal tendem a piorar essa percepção, com efeitos negativos sobre a avaliação de empresas mesmo quando sua performance operacional é robusta. "As empresas têm ficado em segundo plano. Você pode ser a melhor empresa do Brasil, do Peru, mas se o país for para o buraco, você afunda junto", disse.

O raciocínio vale também na outra direção: a independência do banco central e a previsibilidade de políticas econômicas funcionam como amortecedores de risco. Onde esses pilares se mostram fragilizados — por pressões políticas explícitas sobre bancos centrais ou por reversões abruptas em políticas comerciais e fiscais —, o país passa a exibir características mais próximas às de mercados emergentes, com volatilidade e prêmio de risco mais elevados.

Transformações nos EUA e convergência com modelos menos previsíveis

O professor alerta que os Estados Unidos vêm mostrando sinais de afastamento da antiga estabilidade institucional. Ele citou mudanças recentes nas políticas comerciais e investidas de chefes de governo para influenciar decisões do Federal Reserve como elementos que aproximam o país de padrões antes mais típicos de economias emergentes. "Basicamente, vamos acabar em algum lugar no meio do caminho. Ou seja, os EUA vão começar a se parecer mais com mercados emergentes, com governo importando mais e os bancos centrais sendo menos independentes. E isso vai criar um período de incrível volatilidade macro", afirmou.

Essa visão implica um efeito de difusão: se economias desenvolvidas passam a exibir maior intervenção governamental e menor previsibilidade institucional, o universo de avaliação de ativos torna-se mais homogêneo no sentido da incerteza. Investidores que até então consideravam os riscos políticos nos Estados Unidos residuais terão de incorporar choques políticos relevantes em seus modelos.

Impactos práticos para empresas, investidores e formuladores de política

As consequências desse quadro são concretas e podem ser agrupadas em impactos sobre valuation, custo de capital, decisões corporativas e estratégias de investidores:

  • Valuation menos estável: fluxos de caixa projetados passam a ter maior variabilidade entre cenários eleitorais, reduzindo consenso sobre preços justos.
  • Prêmio de risco mais elevado: a incerteza política tende a aumentar o custo de capital exigido por investidores, elevando taxas de desconto.
  • Planejamento corporativo mais conservador: empresas podem postergar investimentos de longo prazo diante de risco de reversão de políticas.
  • Atenção à alocação de portfólios: alocadores terão de reajustar modelos de risco e stress tests para admitir choques políticos severos.
  • Pressão sobre instituições independentes: governos que questionam a autonomia de bancos centrais reduzem ferramentas de estabilização macroeconômica.

Pontos de atenção para análise e tomada de decisão

Ante um ambiente onde a política pesa mais, analistas e gestores precisam adotar algumas precauções práticas:

  1. Construir cenários múltiplos e ponderados em modelos de valuation, não apenas um cenário base.
  2. Avaliar risco-país e risco institucional como variáveis centrais, especialmente em mercados com histórico de volatilidade política.
  3. Monitorar sinais de enfraquecimento de instituições independentes, como bancos centrais, que podem alterar rapidamente o regime de política macroeconômica.
  4. Incluir testes de estresse políticos em análises de sensibilidade de portfólios e avaliação de projetos.
  5. Considerar estratégias de hedge ou diversificação geográfica quando a incerteza política local se intensifica.

Reflexões históricas e sociais

Damodaran também lembrava experiências pessoais para ilustrar a transformação institucional. Ao narrar episódios vividos na Índia, ele descreve um passado em que o "dia do orçamento" mobilizava o país, porque decisões fiscais tinham efeitos imediatos e profundos sobre setores inteiros. Esse comportamento mudou: hoje, segundo ele, o orçamento deixou de ser o eixo que move as vidas econômicas de grande parte da população, refletindo uma transição em que empresas e investimentos privados passaram a ter protagonismo maior no funcionamento cotidiano da economia.

Essa passagem serve para sublinhar a ideia de que o amadurecimento econômico pode ser medido pela menor centralidade das decisões governamentais no dia a dia dos negócios. No entanto, o professor adverte que a reversão desse fenômeno — com governantes ganhando mais controle e políticas mudando de forma abrupta — reintroduz volatilidade e incerteza que corroem previsibilidade e investimentos de longo prazo.

Conclusão

A análise de Aswath Damodaran converge para um diagnóstico de mudança estrutural: a crescente polarização política global e a erosão relativa da previsibilidade institucional elevam a volatilidade macroeconômica e complicam a prática de valuation. Para investidores, gestores e formuladores de políticas, isso exige maior adoção de modelos que incorporam múltiplos cenários, fortalecimento de instituições independentes e estratégias de mitigação de risco político. Em última instância, a habilidade das economias e das empresas de se adaptar a esse novo regime de incerteza definirá sua resiliência e atratividade para o capital no médio e longo prazo.

Fonte: Jorge Alves