Dois estudos inéditos apresentados em evento sobre crescimento, emprego e competitividade apontam que o agronegócio brasileiro enfrenta hoje duas frentes que podem limitar sua expansão: o aprofundamento do déficit e da dívida pública e a crescente escassez de mão de obra rural. Reunindo economistas, pesquisadores, representantes do setor produtivo e autoridades, o fórum expôs diagnósticos que associam desequilíbrios fiscais a um ambiente de investimentos mais hostil e relacionam mudanças estruturais no mercado de trabalho com a necessidade de maior mecanização e ajustes nas políticas de transferência de renda.
Contexto fiscal: endividamento em alta e qualidade dos gastos
O primeiro estudo avaliou a evolução das contas públicas e a forma como a qualidade do gasto influencia a sustentabilidade da dívida e o apetite por investimentos. Dados oficiais citados pela pesquisa indicam que o estoque da dívida do setor público atingiu R$ 10,8 trilhões em junho de 2026. Mantido o ritmo observado, a projeção debatida no evento chega a apontar que o endividamento poderá alcançar 95,5% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030.
Além do montante da dívida, o levantamento chama atenção para a composição e o comportamento do gasto público. No exercício do ano anterior, foram gastos R$ 2,3 trilhões sem encargos especiais, dos quais quase metade destinou‑se à previdência (47,8%) e parcela expressiva à assistência social (12,6%). Esse padrão, segundo os estudos, pode limitar a margem para investimentos públicos, que ficam mais suscetíveis a cortes em cenários de ajuste.
A carga tributária também figura no diagnóstico: no último ano, chegou a 34,35% do PIB, com 21,60 pontos percentuais vinculados ao nível federal — incremento superior a dois pontos percentuais em apenas dois anos. Os pesquisadores destacaram ainda problemas estruturais que corroem a credibilidade fiscal e a eficiência do gasto, como rigidez orçamentária e baixa qualidade das despesas públicas, o que reduz a capacidade de obter resultados primários compatíveis com a estabilização da dívida.
Reformas e ajuste: magnitude e desafios
Dois pontos emergem como urgentes no debate: revisão do arcabouço fiscal e racionalização das despesas estruturais, incluindo previdência e programas sociais. No ambiente apresentado, não existe solução única: estima‑se a necessidade de um ajuste fiscal substancial na casa das centenas de bilhões de reais para estabilizar as contas. A discussão ressaltou a importância de maior transparência e padronização das estatísticas fiscais para evidenciar o esforço de ajuste e facilitar a recondução das políticas públicas.
Escassez de trabalhadores no campo: causas e efeitos
O segundo estudo se concentrou no mercado de trabalho agropecuário, identificando obstáculos tanto para contratar quanto para reter profissionais qualificados. Entre 2021 e 2025, o salário no setor agropecuário cresceu 35%, superando o avanço observado em outras atividades (24,8%), mas os produtores ainda relatam dificuldade em preencher vagas. Parte desse problema é conjuntural, ligada à queda do desemprego formal; outra parte é estrutural, decorrente de mudança demográfica, deslocamento de mão de obra para outras atividades e dinâmica regional desigual.
Na comparação regional, a situação varia bastante. No Nordeste, por exemplo, a taxa oficial de desemprego de 8,3% sobe para 24,4% quando se incorporam subocupados, trabalhadores informais com poucos horários e desalentados — grupos que impactam a oferta efetiva de trabalho disponível para o campo.
O estudo também documentou transformação da produção: entre 2012 e 2025, a área agrícola cresceu 43,2% enquanto o número de empregados por 100 hectares caiu 38,5%. A mecanização aparece não como causa principal, mas como consequência: produtores investem em máquinas para compensar a falta de trabalhadores. Em alguns casos, propriedades migraram de atividades intensivas em mão de obra, como fruticultura e horticultura, para culturas que demandam menos pessoal.
Transferências de renda e incentivos ao trabalho
Uma dimensão sensível analisada pela pesquisa foi o efeito dos programas de transferência de renda sobre a disponibilidade de trabalho. O aumento do valor e do número de beneficiários contribuiu para reduzir a participação na força de trabalho — com estimativas que variam entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais no agregado nacional e redução de 3,07 pontos percentuais no setor agropecuário. Pesquisadores ouviram produtores, muitos dos quais apontaram que beneficiários recusaram vagas de trabalho por receio de perder auxílio; 83% dos entrevistados perceberam impacto das transferências na oferta de mão de obra, e 63,2% relataram ter presenciado recusas motivadas pela manutenção do benefício.
Debatedores ressaltaram, porém, que a questão não é abolir os programas sociais, mas redesenhá‑los para preservar proteção social sem desestímulo ao trabalho formal. Propostas citadas incluem mecanismos que permitam acumular renda do trabalho com benefícios por períodos de transição, além de incentivos à formalização e políticas de qualificação que ampliem as oportunidades remuneradas.
Produtividade, competitividade e caminhos práticos
Apesar dos desafios, a agropecuária brasileira vem apresentando ganhos expressivos de produtividade: nos últimos 30 anos, o setor cresceu 515%, contra 28% da média da economia. Em 2024, a produtividade do trabalho no campo foi estimada em US$ 12,7 mil por trabalhador — cerca de 43% da média dos países de alta renda e distante dos US$ 85 mil observados nos Estados Unidos. Esse gap indica espaço para avanços tecnológicos e organizacionais, ainda que a capacidade de progresso seja heterogênea entre regiões e cadeias produtivas.
Na prática, a combinação de restrições fiscais e escassez de mão de obra impõe decisões estratégicas aos produtores e ao poder público. Para o setor privado, as alternativas passam por ampliar investimentos em mecanização, automação e capacitação, além de reavaliar portfólios produtivos conforme disponibilidade de trabalhadores. Para o poder público, a prioridade apontada pelos estudos inclui reformas capazes de restabelecer sustentabilidade fiscal, redesenho de programas sociais para preservar incentivos ao trabalho e políticas regionais de formação profissional que reduzam o desalinhamento entre oferta e demanda por habilidades.
- Reforma fiscal e transparência: ajustar arcabouço e padronizar estatísticas para recuperar credibilidade.
- Racionalização de gastos: foco em previdência e eficiência de programas sociais para reduzir pressão sobre investimentos.
- Políticas laborais: redesenho de transferências para compatibilizar proteção social e estímulo ao trabalho formal.
- Adaptação produtiva: estímulo à mecanização, qualificação e inovação tecnológica para mitigar escassez de mão de obra.
Conclusão
Os diagnósticos apresentados no fórum indicam que o agronegócio brasileiro permanece resiliente, mas vulnerável a fatores macroeconômicos e estruturais que podem frear sua competitividade. A combinação de uma trajetória de endividamento público em elevação, gastos com rigidez e limitações na capacidade de investimento, junto com a escassez de trabalhadores e mudanças nas dinâmicas laborais, exige respostas coordenadas. Reformas fiscais, redesenho inteligente de políticas sociais e medidas que acelerem a adoção de tecnologia e formação profissional despontam como pilares necessários para que o setor continue a sustentar o crescimento econômico do país sem perder espaço perante desafios internos e externos.
Fonte: Jorge Alves





