Símbolo da cultura alimentar do Ceará, a cajuína artesanal pode ganhar novos mercados e ampliar sua presença na mesa dos cearenses, mas, para isso, precisa de investimentos em pesquisa, inovação, regulamentação e políticas públicas que fortaleçam os pequenos produtores.
A avaliação é da professora Vanessa Moreira, pesquisadora em cultura alimentar, doutoranda em Antropologia e coordenadora de Cultura Alimentar e Pesquisa da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco. Em entrevista ao Jornal Alerta Geral, Vanessa destaca a diversidade da cajuína produzida no Ceará e defende estratégias para agregar valor à bebida e ampliar sua comercialização.
“A cajuína não tem um único gosto. Ela tem a diversidade do povo cearense”, resume Vanessa, em conversa com o jornalista Luzenor de Oliveira.
CAJUÍNA TEM SABORES DIFERENTES EM CADA REGIÃO
Segundo a pesquisadora, as técnicas utilizadas pelos produtores dão características próprias à bebida em cada região. Há cajuínas mais claras, mais escuras, mais doces e com diferentes atributos de sabor e aroma.
Vanessa compara essa diversidade ao que acontece com vinhos e cervejas especiais, cujas características de produção e origem ajudam a diferenciar e valorizar o produto.
A Escola de Gastronomia Social desenvolve pesquisa justamente para identificar essas particularidades e construir descritores sensoriais da cajuína cearense. O trabalho envolve aspectos como filtragem, clarificação, tratamento, envase, armazenamento e boas práticas de fabricação.
PRODUTORES SERÃO REUNIDOS PARA FORTALECER CADEIA DA CAJUÍNA
Um encontro marcado para sexta-feira (18), em Fortaleza, reunirá produtores de diferentes regiões do Ceará para discutir os caminhos da atividade.
Segundo Vanessa, a proposta é aproximar agricultores e produtores das instituições de pesquisa, desenvolvimento e inovação, permitindo acesso a conhecimento científico, análises laboratoriais e avaliações sensoriais.
A programação abordará também o registro e a salvaguarda da produção artesanal, diferentes métodos de fabricação e mecanismos de proteção comercial.
Representantes de instituições parceiras participarão das discussões. O encontro terá ainda debate sobre registro de marca e indicação geográfica, com participação de representante do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
CIÊNCIA PODE AGREGAR VALOR AO PRODUTO ARTESANAL
Para Vanessa, tradição e conhecimento científico precisam caminhar juntos. O pequeno produtor, segundo ela, necessita de apoio para realizar análises microbiológicas, melhorar rotulagem e embalagem, desenvolver identidade visual e garantir boas práticas durante a fabricação.
A pesquisadora destaca que produzir cajuína artesanal exige conhecimento acumulado ao longo de gerações. O tipo e a acidez do caju, a combinação das frutas, a filtragem e a quantidade de clarificante interferem diretamente no resultado.
“Cada produtor tem uma cajuína com gosto e características únicas. É isso que a gente quer contar para o Estado do Ceará e para o Brasil todo”, afirmou.
POR QUE A CAJUÍNA AINDA PERDE ESPAÇO PARA O REFRIGERANTE?
Durante a entrevista, Luzenor de Oliveira questiona por que uma bebida tão ligada à identidade do Ceará ainda possui presença limitada no cotidiano do consumidor quando comparada aos refrigerantes industrializados.
Vanessa associou essa realidade às transformações dos hábitos alimentares e ao avanço dos produtos industrializados e ultraprocessados. Segundo ela, enquanto refrigerantes são encontrados facilmente em praticamente qualquer comércio, a cajuína artesanal nem sempre está disponível com a mesma facilidade.
Para mudar esse cenário, a pesquisadora defende políticas públicas, regulamentação, pesquisa, inovação e instrumentos capazes de tornar os produtos dos pequenos agricultores mais competitivos.
CAJUÍNA NA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR ENTRA NO DEBATE
Outro ponto levantado pelo Jornal Alerta Geral foi a possibilidade de inclusão da cajuína artesanal na alimentação escolar, como forma de estimular hábitos alimentares ligados à cultura regional e, ao mesmo tempo, gerar mercado para a agricultura familiar.
Luzenor lembrou que o assunto já foi apresentado, em entrevista anterior, ao senador Camilo Santana e defendeu a ampliação do debate com produtores, pesquisadores e representantes políticos.
Vanessa explicou que a alimentação escolar possui regras próprias e mecanismos de compras públicas que favorecem produtos da agricultura familiar. A entrada de um novo produto no cardápio, porém, passa por critérios técnicos e testes de aceitabilidade entre os estudantes.
A pesquisadora relatou que, em experiências realizadas em alguns municípios, houve situações em que crianças não aprovaram inicialmente a cajuína. Para ela, o resultado ajuda a mostrar a influência dos hábitos alimentares construídos desde a infância.
EDUCAÇÃO ALIMENTAR ANTES DE COLOCAR A BEBIDA NO CARDÁPIO
A eventual chegada da cajuína às escolas, portanto, poderia ser acompanhada de ações de educação alimentar e valorização da cultura regional, apresentando às crianças a origem do caju, o trabalho dos agricultores e o processo artesanal de fabricação da bebida.
A discussão ultrapassa, assim, a simples substituição de uma bebida por outra. Envolve cultura alimentar, geração de renda, agricultura familiar e formação de novos hábitos de consumo.
O Jornal Alerta Geral pretende continuar acompanhando o debate e abrir espaço para produtores, pesquisadores, instituições e representantes públicos discutirem alternativas para fortalecer a cadeia produtiva.
Para Vanessa Moreira, o desafio é transformar o conhecimento tradicional dos produtores em mais valor econômico e reconhecimento cultural, sem eliminar justamente aquilo que diferencia a bebida.
A cajuína cearense, segundo a pesquisadora, não precisa ter um sabor padronizado para conquistar mercado: sua força pode estar exatamente na diversidade de sabores, técnicas e histórias espalhadas pelas diferentes regiões do Ceará.
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Fonte: Ceará Agora





