O cenário da corrida presidencial observou nesta semana uma mudança de tom por parte do candidato Ronaldo Caiado (PSD). Em sabatina realizada na quinta-feira (3), Caiado passou a criticar de forma direta o adversário Augusto Cury (Avante), ressaltando a falta de experiência política do escritor como fator relevante para a condução do Executivo federal. O movimento ocorre após levantamento de intenções de voto apontar ascensão de Cury à terceira posição, sobrepondo-se a Caiado.
Contexto e os números que motivaram a reação
Levantamentos divulgados nos últimos dias trouxeram alterações no quadro de candidaturas. Em pesquisa Quaest, divulgada na quarta-feira, o candidato do Avante foi de 2% para 10% das intenções de voto, alcançando a terceira colocação. No mesmo período, o candidato do PSD teve queda de 4% para 1%. Foi esse deslocamento nas intenções de voto que explicita parte da mudança no discurso de Caiado, que até o início da semana vinha tratando o avanço de candidatos do chamado "segundo pelotão" como possibilidade de abertura da disputa além da polarização entre os principais nomes do pleito.
Antes da alteração no tom, Caiado havia afirmado que a população não deseja permanecer na polarização entre determinados líderes nacionais e demonstrara expectativa de que um nome do bloco intermediário pudesse chegar ao segundo turno — expectativa que, naquele momento, ele projetava para si. Com a nova configuração nas pesquisas, o candidato passou a enfatizar a necessidade de trajetória pública como critério de governabilidade.
Argumento central: experiência política e a dificuldade de governar
Na sabatina, Caiado questionou a capacidade de um estreante em cargos eletivos para administrar as múltiplas dimensões do Governo Federal. Em suas declarações, ele destacou que o presidente precisa lidar com o Congresso Nacional, com o Supremo Tribunal Federal, com a Procuradoria-Geral da República e com o Tribunal de Contas da União, apontando esses organismos como desafios institucionais que exigem preparo político e experiência prévia.
Ao ser perguntado se o momento seria o mais adequado para apostar em alguém sem vivência política, Caiado disse ser difícil imaginar que alguém sem ter percorrido etapas eletivas consiga aprender a governar já na Presidência diante do quadro crítico do país. Como contrapeso, apresentou sua trajetória de 40 anos na vida pública, enumerando passagens por cargos como deputado, senador e governador de estado como credenciais que, em sua visão, o habilitam para enfrentar as complexidades do cargo.
Repercussões em relação ao Judiciário: afastamento de ministro do STF
Outro ponto de destaque na sabatina foi a reiterada defesa pelo afastamento do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal. Caiado afirmou que a permanência do magistrado poderia provocar uma "insurgência" e colocar em risco a ordem democrática, na medida em que pessoas submetidas a decisões do ministro poderiam questionar sua legitimidade para julgá-las.
Segundo o candidato, essa contestação individual às decisões poderia levar cidadãos a deixar de cumprir determinações judiciais por entenderem que o ministro não possui condições para julgá-los, o que, na avaliação dele, criaria grave tensão institucional. Ao mesmo tempo, Caiado distinguiu essa hipótese de ações formais do Congresso: disse que a abertura de processo de impeachment contra um ministro do STF estaria dentro das prerrogativas constitucionais do Senado e, portanto, não equivaleria a uma "insurgência".
Em seu diagnóstico, a manutenção do ministro no cargo sem que haja renúncia ou afastamento por parte da Corte geraria uma tensão capaz de desestabilizar a democracia brasileira. A solução, na sua perspectiva, passaria pela renúncia do próprio magistrado ou por um afastamento decidido pelos pares no Tribunal.
Políticas de segurança e autonomia estadual
No debate sobre segurança pública, Caiado abordou a discussão sobre o uso contínuo de câmeras corporais por policiais. Para ele, a implementação dessa medida deveria ficar a cargo dos governos estaduais, não do Executivo federal. Em suas palavras, governadores teriam a prerrogativa de decidir a aplicação dessa política em suas unidades federativas, enquanto a Presidência deveria respeitar essa autonomia.
Economia: cautela na reforma tributária
Na área econômica, Caiado declarou não ser contrário à reforma tributária, mas defendeu que sejam feitas simulações prévias sobre os efeitos das mudanças propostas nos diferentes setores da economia. Ele mencionou que representantes dos segmentos de bares e restaurantes, varejo, indústria e aviação vêm manifestando preocupação com mudanças que, na avaliação do candidato, poderiam representar aumento de carga tributária para esses setores.
O pedido por simulações tem como objetivo avaliar impactos setoriais antes da adoção de regras definitivas, permitindo que eventuais ajustes sejam pensados para mitigar efeitos adversos e preservar a atividade econômica desses segmentos.
Impactos práticos e pontos de atenção
- Governabilidade: o argumento sobre experiência política coloca em evidência o debate sobre qual perfil de candidato teria mais condições de transitar entre poderes e instituições. A tensão entre novos nomes fora da política tradicional e a necessidade de costurar apoio no Congresso e no Judiciário tende a ser assunto central daqui para frente.
- Relação Executivo-Judiciário: a sugestão de afastamento de um ministro do STF por parte de um candidato à Presidência eleva o debate sobre a independência das cortes, os mecanismos constitucionais para responsabilização de magistrados e os riscos de desgaste institucional.
- Autonomia estadual em segurança: a posição de delegar a governadores a decisão sobre uso de câmeras corporais reforça a distribuição de competências federativas em matéria de segurança pública, mas pode gerar heterogeneidade de práticas entre estados.
- Reforma tributária e setor produtivo: a defesa por estudos de impacto sinaliza preocupação com possíveis elevações de carga tributária setorial. A ausência de simulações, segundo o candidato, seria motivo para cautela na implementação de mudanças fiscais.
- Campanha e narrativa: a alteração no tom de discurso ocorre em um momento eleitoral sensível: a perda de posições nas pesquisas tende a levar candidatos a ajustar abordagens e a polarizar críticas contra adversários diretos, o que pode influenciar alianças e estratégias nas próximas semanas.
Conclusão
A guinada retórica de Ronaldo Caiado, de uma postura mais aberta ao surgimento de terceiros polos para uma crítica direta a um adversário em ascensão, reflete a dinâmica da campanha diante de sondagens eleitorais que alteraram o equilíbrio entre candidatos. Ao focalizar a experiência política como requisito para a Presidência e ao levantar questionamentos sobre a permanência de um ministro do STF, o candidato busca consolidar um discurso que liga capacidade administrativa à legitimidade institucional. Paralelamente, suas posições sobre câmeras policiais e a reforma tributária enfatizam a defesa da autonomia estadual e da cautela técnica nas mudanças fiscais. As próximas pesquisas e os desdobramentos institucionais devem dizer se essa estratégia reverberará entre eleitores e atores políticos.
Fonte: Jorge Alves





