A circunferência abdominal pode ser um indicador mais preciso do risco de doenças cardiovasculares do que o índice de massa corporal (IMC) utilizado isoladamente. É o que aponta um estudo publicado nesta terça-feira (11/08) no Journal of the American College of Cardiology (JACC). Segundo a pesquisa liderada pela Universidade Johns Hopkins, tradicionalmente, o cálculo do IMC considera o peso e a altura do indivíduo, mas não revela como a gordura está distribuída pelo corpo. Segundo a nova pesquisa, essa limitação pode fazer com que alguns pacientes tenham o risco cardiovascular subestimado.

 Para o trabalho, a atenção dos pesquisadores se voltou principalmente para o que fica acumulado na região abdominal. A chamada gordura visceral se concentra ao redor dos órgãos internos e está associada a doenças crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares.

Para investigar o impacto da distribuição da gordura, pesquisadores da Cross Cohort Collaboration analisaram dados de mais de 260 mil pessoas, acompanhadas durante aproximadamente 20 anos. Os participantes tinham informações sobre circunferência da cintura (CC) ou relação cintura-quadril (RCQ), além de dados relacionados a diferentes eventos cardiovasculares.

Entre os desfechos avaliados estavam infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença coronariana, problema cardiovascular e mortalidade por essas e quaisquer outras causas.

Os resultados mostraram que a medida abdominal pode alterar a avaliação feita inicialmente pelo IMC. Entre os participantes considerados de peso normal, 5% apresentavam circunferência da cintura elevada. Quando considerada a relação cintura-quadril, esse percentual chegou a 18%.

Entre as pessoas classificadas como tendo sobrepeso, 39% apresentavam cintura elevada e 40% tinham RCQ considerada alta. No grupo de participantes com obesidade, 9% apresentavam circunferência da cintura baixa e 45% tinham relação cintura-quadril baixa.

A presença de adiposidade abdominal elevada foi associada a um risco entre 15% e 50% maior para grande parte dos desfechos negativos analisados entre indivíduos com peso normal ou sobrepeso. O resultado indica que duas pessoas com o mesmo IMC podem apresentar perfis cardiovasculares diferentes dependendo de onde a gordura está concentrada.

Adiposidade

Michael J. Blaha, autor senior da pesquisa e diretor de pesquisa clínica do Centro Ciccarone para a Prevenção de Doenças Cardiovasculares da Johns Hopkins, afirmou que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril podem reclassificar as chances de problemas de saúde. “Observamos indivíduos com peso clinicamente determinado como normal que apresentavam adiposidade central elevada e RCQ alta, associando-os a um risco maior na maioria dos desfechos.”

Isabella Santiago,  endocrinologista de Brasília, diz haver medidas simples para reduzir a gordura abdominal e os seus riscos. “As mudanças começam pela alimentação: aumentar o consumo de produtos in natura, como verduras, legumes e frutas, e preferir o que não é ultraprocessado, porque eles costumam ter quantidades muito elevadas de sódio e gordura saturada. Também é importante reduzir o consumo de bebidas açucaradas e fazer atividade física.”

De acordo com a especialista, o ideal seria associar uma atividade física aeróbica a uma atividade de resistência. “Também é importante reduzir o tempo sentado. Existem estudos novos mostrando a associação entre o tempo sentado e o risco cardiovascular, além do risco de outras doenças, como a demência.”

O achado chama atenção especialmente para pessoas que não são classificadas como obesas. Um indivíduo pode apresentar peso considerado normal e, ainda assim, ter concentração elevada de gordura abdominal. Nesse caso, olhar apenas para o IMC pode deixar de identificar um fator associado a maior probabilidade de problemas cardiovasculares.

“Incentivamos os médicos a considerarem a distribuição da adiposidade central em todo o espectro do IMC ao avaliarem o risco cardiovascular em contextos de prevenção primária”, explicou Zeina A. Dardari, autora principal do estudo.

Segundo a publicação, isso não significa que o IMC tenha deixado de ser útil. O índice continua sendo uma ferramenta prática para avaliar o peso corporal, principalmente em estudos populacionais. A questão levantada pelos cientistas é que seu uso isolado pode não refletir adequadamente as diferenças existentes entre indivíduos com a mesma relação entre peso e altura.

De acordo com o endocrinologista e professor de medicina do Centro Universitário de Brasília, Marcio Dytz, o estudo mostra uma associação e não uma relação de causa. “Embora seja correto afirmar que a circunferência abdominal prediz o risco melhor do que o IMC, isso não significa que o IMC tenha se tornado irrelevante.”

“O segundo ponto que considero especialmente animador é que o instrumento envolvido é uma simples fita métrica de custo irrisório. No Brasil, isso democratiza a avaliação de risco, qualquer unidade de saúde pode aferir a circunferência abdominal e identificar precocemente indivíduos sob risco, muito antes da ocorrência de um evento cardiovascular”, completou o docente.

Fonte: Ceará Agora