Após dias de cobranças para se posicionar na eleição presidencial, o cantor João Gomes, de 24 anos, manteve a decisão de não declarar voto em nenhum dos candidatos, mas fez um pronunciamento durante um show em Londrina (PR) em defesa da democracia, dos auxílios sociais, da educação, das cotas, do SUS e da liberdade de expressão.

Um dos trechos mais marcantes da carta foi a lembrança do amigo de infância Ítalo, que sonhava em jogar futebol, mas não tinha tempo para o lazer nem para perseguir esse sonho porque precisava trabalhar desde cedo para ajudar a mãe.

“Eu tenho um grande amigo que se chama Ítalo. Nunca pôde jogar aquele campeonato da escola porque depois da aula já trabalhava para ajudar a mãe em casa. Nos fins de semana também não tinha tempo”, contou.

João usou a história para defender políticas públicas que deem condições para crianças e jovens estudarem, terem lazer e construírem seus próprios projetos de vida sem precisar abrir mão dessas oportunidades por causa das dificuldades financeiras da família.

O cantor também fez uma defesa direta dos programas de auxílio.

“Que todo auxílio aos que precisam seja respeitado”, afirmou.

Ao falar de educação, João destacou a importância dos professores, das bolsas de estudo e das políticas de cotas, além de defender condições para que alunos em situação de vulnerabilidade permaneçam na escola e cheguem à universidade.

O artista também defendeu o SUS, a pesquisa científica, políticas de segurança e maior atenção à saúde mental.

No encerramento, fez uma defesa enfática da democracia.

“Eu sou a favor, sim, da democracia. Que a gente possa falar e ser ouvido. E, se não falar também, ser compreendido. Que não sejamos oprimidos, que tenhamos liberdade de expressão”, declarou.

Sem anunciar voto em Lula ou Flávio Bolsonaro, João pediu aos brasileiros que façam sua escolha pensando nas crianças e no futuro do país.

ÍNTEGRA DA CARTA DE JOÃO GOMES

“Estou com um nó na garganta,
mas não arrancaram a minha cabeça.
Com uma dor no peito,
mas não levaram meu coração.

Eu não mereço sofrer.
Eu não mereço adoecer porque o mundo está doente.

Me questionaram para que lado eu estava a favor.
Eu pensei, me calei,
mas agora posso falar depois de tanto conversar comigo mesmo.

Primeiramente, sou a favor da educação. Dos meus mestres, doutores e professores, que me ensinaram a ler e a escrever.

Graças a isso posso me comunicar com o mundo inteiro e ter opinião também.

Que eles possam receber mais dinheiro pelo seu trabalho tão importante.

Que pessoas brilhantes ocupem as faculdades, que os alunos mais necessitados não desistam do ensino.

As cotas não são chacotas e serão multiplicadas.

Também já ganhei bolsa de estudo para morar na escola por causa da gravidade da situação do bairro em que eu morava. Aconteceu porque, no caminho da escola, fui roubado, mas não deixei de ir porque precisava estar lá. Eu não desisti ali.

Sou a favor da segurança. Que a gente não seja uma vítima assim que sair de casa e que possamos voltar em paz para ela também. Para nossos filhos, para nossos pais.

Sou a favor de que conquistemos nossos sonhos também. Que a gente possa ser enxergado no meio de tanto desengano.

Todo trabalho é digno de respeito e as pessoas também.

Que todo auxílio aos que precisam seja respeitado.

Eu tenho um grande amigo que se chama Ítalo. Nunca pôde jogar aquele campeonato da escola porque depois da aula já trabalhava para ajudar a mãe em casa.

Nos fins de semana também não tinha tempo!

Era um menino bom, guerreiro. Tantos como ele podiam jogar em qualquer time do mundo que você pode imaginar.

Por tanto tempo lutaram, só sobrou tempo para lutar. Eu sou a prova viva disso.

Sou a favor do SUS, da pesquisa. Que mais pessoas consigam se capacitar para cuidar da gente. Que a gente não sofra em filas, que a gente seja cuidado.

Nossa geração hoje é tão ansiosa que a saúde mental seja levada a sério e que não seja motivo de desdém.

A gente chora, pede socorro e que nessas horas a gente ganhe um abraço também.

Mais que isso: que a gente sinta o prazer de se sentir vivo! Um sorriso, uma palavra, tenhamos bons amigos e que possamos conviver com as nossas.

O meu primeiro psicólogo, de joelhos no quarto, eu clamava, não sabia como falar, mas ele me ouvia e conseguiu me ajudar.

Eu acho que eu não tenho muito tempo para falar tudo que eu quero, mas eu só queria dizer uma última coisa: eu sou a favor, sim, da democracia!

Que a gente possa falar e ser ouvido. E, se não falar também, ser compreendido.

Que não sejamos oprimidos, que tenhamos liberdade de expressão e que as pessoas se amem sem se justificar.

Que a gente possa perdoar até o que a gente não tem culpa.

A gente demorou muito tempo para conquistar o direito a votar e isso foi através de muita luta.

Então, que a gente vote pensando nas nossas crianças, que a gente vote pensando no futuro do nosso país!”

Fonte: Ceará Agora