Uma substância usada para dar sabor de baunilha a cigarros eletrônicos alterou células-tronco embrionárias humanas em experimentos de laboratório e interferiu em um processo ligado à formação inicial do embrião, segundo um estudo publicado na revista Human Reproduction.

Os pesquisadores encontraram os efeitos em uma concentração de vanilina que, segundo um modelo matemático de exposição, poderia ser alcançada no sangue materno em determinados padrões de uso do vape.

O estudo oferece uma solução para uma questão que cientistas tem enfrentado: as ligações, já observadas, entre o uso de vapes, dificuldades de engravidar e abortos espontâneos.

“Há pouco conhecimento sobre como o uso de cigarros eletrônicos pode afetar o desenvolvimento de embriões em gestantes que os utilizam”, disse Prue Talbot, professora da divisão de pós-graduação do Departamento de Biologia Molecular, Celular e de Sistemas da UCR, que liderou o estudo.

“Realizamos este estudo para determinar se a vanilina, um componente químico aromatizante frequentemente usado em cigarros eletrônicos em altas concentrações, poderia afetar negativamente o desenvolvimento de embriões humanos jovens”, afirma o pesquisador.

Como estudo foi feito e o que ele descobriu

Por se tratar de um estudo de laboratório e não uma pesquisa clínica, os pesquisadores trabalharam com duas linhagens de células tronco embrionárias humanas, chamadas de H9 e H1 — essas células são usadas para modelar o epiblasto, uma estrutura que participa dos primeiros estágios do desenvolvimento embrionário.

Realizadas três vezes, utilizando diferentes passagens das células, os cientistas expuseram-nas diferentes concentrações de vanilina

Em uma concentração de 450 nM, o equivalente a 1 a 4 tragadas por hora de um vape de baunilha, já foi possível observar alterações nas células, fazendo com que elas se tornassem endodermas, assumindo, prematuramente, uma identidade mais específica.

Isso poderia ser problemático durante a formação do embrião, porque o desenvolvimento depende de movimentos e sinais celulares altamente coordenados.

Em concentrações ainda maiores, como 450 µM, a vanilina se torna tóxica, causando morte celular. Só que essa quantidade é mil vezes maior que 450 nM. O maior cenário realista apresentado foi o de 27,5 µM, o equivalente a 64 tragadas por hora.

Pesquisas com outros sabores continuam

Essa não foi a primeira pesquisa feita por essa equipe sobre as consequências do uso de vapes. Anteriormente, eles já investigaram o sabor de mentol em cigarros eletrônicos e descobriu que ele contribuia para doenças respiratórias em humanos.

Agora, eles investigam um químico refrescante sintético, WS-23, muito utilizado em vapes.

Os pesquisadores, no entanto, alertam que o presente estudo não estima os efeitos da exposição repetida ou cumulativa à vanilina ao longo de dias, semanas, meses ou anos: “O efeito da exposição a longo prazo pode ser maior”, disse Talbot.

Fonte: Ceará Agora